Anticoncepcional, Implanon e remédios no exterior: relatos da vida real

Minha experiência com hormônios e saúde na estrada durante o último ano. Uso do implanon, levar remédios controlados na bagagem entre vários países, e o ciclo menstrual.

Julia

1/26/20264 min read

O corpo sente antes da gente perceber o que está acontecendo.

Entendi isso numa conversa com minha psicóloga. Eu estava relatando algumas crises de choro sem motivo aparente. Depois de analisar bem, ligamos os pontos: hormônios. Uma espécie de "TPM" — coloco entre aspas porque, com o Implanon, eu tecnicamente não tenho o ciclo clássico, mas a loucura hormonal continua ali. Às vezes faz sentido, às vezes não.

Tem coisas sobre viajar que ninguém te conta. Não porque são segredo de estado, mas porque não ficam bonitas nos stories. Ou porque são íntimas demais. A verdade é que a vida cotidiana não para só porque você está num cenário paradisíaco.

O corpo sente. E sente rápido. Eu demorei para entender isso. Fiquei um tempo achando que era "coisa da minha cabeça", mas não é coincidência. Existe uma explicação fisiológica real.

A culpa é do relógio (e não é o do pulso)

Nosso corpo funciona com um relógio biológico, o ritmo circadiano. Ele regula tudo: sono, fome, humor e hormônios.

Quando a gente atravessa o mundo, muda a rotina e dorme mal, esse relógio entra em pane. O cérebro até se ajusta rápido ao novo fuso. Mas os ovários e o útero demoram mais. É como se o meu cérebro já estivesse na Tailândia, mas meu sistema reprodutivo ainda estivesse no horário de Brasília.

Estudos mostram isso. Nos primeiros meses de mudança de país, é normal ter ciclos irregulares. Não porque algo "deu errado", mas porque o corpo está tentando entender em que mundo ele acordou hoje.

Adicione a isso o estresse invisível. Onde dormir? Quanto gastar? Como pego esse ônibus? Que língua eu falo agora? Esse estado de alerta constante é o terreno perfeito para bagunçar o ciclo.

A decisão do Implanon: logística e realidade

Alguns meses antes de viajar, tomei uma decisão prática: coloquei o Implanon.

Não foi estética. Foi logística pura. Coloquei uns 3 ou 4 meses antes de embarcar. Queria ter tempo de tirar caso odiasse ou não me adaptasse.

Por que não o DIU? Sendo bem honesta, eu me sentia insegura. A ideia dele sair do lugar e eu precisar fazer ultrassom com frequência em países desconhecidos me deixava ansiosa. O Implanon parecia mais "estável".

Eu tinha pânico de não encontrar meu anticoncepcional oral fora do Brasil. Medo de não conseguir receita, não achar a dosagem certa.

A ironia? Esses dias entrei numa farmácia aqui na Tailândia e dei de cara com o Yaz (meu antigo anticoncepcional) na prateleira. Dei risada, lembrando de quanto pesquisei isso desesperada no Brasil.

Mas nem tudo são flores. O Implanon me trouxe paz logística, mas minha pele sofreu. Tive muitas espinhas. Em alguns momentos, pensei em tirar porque nenhum creme dava conta. Com o tempo, comecei a me acostumar com as fases da pele: algumas semanas boas, outras ruins. Vida que segue.

O perrengue dos remédios controlados na mala

Outra parte pouco comentada: a farmacinha.

Pesquisei muito para me sentir segura levando remédios controlados na bagagem. A regra de ouro que sigo é:

  1. Estoque planejado para o tempo da viagem.

  2. Receita médica original.

  3. Carta do médico em inglês explicando o uso.

Na prática? Nunca me perguntaram nada. Passei por várias alfândegas e a bolsinha de remédios passou direto no raio-x. Mas ter a documentação me deixa tranquila.

Para quem viaja muito, organização é sanidade. Eu uso organizadores para não ter que abrir caixas toda hora e saber exatamente quanto estoque ainda tenho.

O caso da tireoide (Atenção aqui)

Mesmo com planejamento, passamos aperto. O João toma remédio contínuo para a tireoide. Recentemente, precisávamos repor o estoque aqui na Ásia e descobrimos um problema: a dosagem exata que ele usa simplesmente não existe na Tailândia.

Não é que estava em falta. Ela não é comercializada no país. Tivemos que fazer uma matemática louca de comprar dosagens diferentes para quebrar e somar. Mas não é o ideal... Por sorte, já estamos com nossas datas e passagem certas pra ir pro Brasil e logo ajustar isso de novo.

O que eu queria ter ouvido antes

Queria que alguém tivesse me dito o óbvio: seu corpo vai sentir a mudança antes de você. E tudo bem.

Essas mudanças costumam ser temporárias. O corpo entende o novo padrão de luz e se acalma. Enquanto isso, o que ajuda é o básico: dormir o melhor possível, pegar luz do dia e reduzir a autocobrança.

Viajar não é só mudar de lugar. É mudar de ritmo. O corpo acompanha, mas no tempo dele. Entender isso não tira a magia da viagem, só torna tudo um pouco mais honesto.

Você tem uma amiga que está planejando um intercâmbio ou uma viagem longa?

Envie esse post para ela. São coisas que a gente só descobre na prática, mas que aliviam muito saber antes de ir.